06 setembro, 2009

Olhares

         Não me lembro exactamente quando começou o meu interesse pela fotografia.
         Talvez tenha surgido nas aulas de História quando me apercebi do poder das imagens que traziam até mim mais palavras do que os relatos, os relatórios, as notícias. As palavras eram simples rastos vagos de acontecimentos, a fotografia era o momento.
         Talvez tenha surgido quando comecei a visitar galerias de arte. Aí, a fotografia expandiu-se para além das barreiras que eu mesma lhe impunha. Deixou de ser apenas a janela para um segundo passado, tornou-se a expressão livre de uma qualquer ideia, de uma qualquer sensação, tornou-se arte, pensamento, criatividade. A sua importância, a sua mensagem e o seu significado deixaram de ter de ser a fotografia em si. Para além das formas e das cores, a fotografia tornou-se palco de mil e uma mensagens subtis que cada um entende e sente à sua maneira, tirando dela significados que poderão pouco ou nada ter a ver com o objecto fotografado, sendo este apenas o ponto de partida para uma ideia.
         Reflectindo um pouco mais, penso que talvez o meu gosto por fotografia tenha surgido bem antes de tudo isto. Talvez desde o primeiro “click”, talvez deste a primeira sensação de condensar um pouco do meu mundo num gesto tão simples e ver um segundo tornar-se matéria, tornar-se mais presente e vê-lo contrariar a fugacidade dos momentos, da correria dos “tick-tack” incessantes do relógio, das memórias que se esvanecem...
        A propósito deste gosto, decidi comprar uma máquina fotográfica. Para além dos típicos momentos captados com os amigos e familiares, quis explorar mais esta forma de arte. Saí à rua e fui em busca do que é que torna tão viva uma fotografia. Edifícios, espaços verdes, animais, poderia ter escolhido qualquer uma destas categorias mas, à medida que andava pelas ruas do Porto, com um familiar também apaixonado por fotografia, os olhares captaram a objectiva. Dei por mim a sentir a cidade de uma forma totalmente nova. Vi o Porto, pela primeira vez, através dos milhares de olhares que o fitam todos os dias. Os olhos das pessoas eram os meus e, através delas, captei histórias, tradições, sentimentos, expressões, que me disseram mais sobre o Porto do que qualquer rua, do que qualquer fonte, do que qualquer praça, do que qualquer torre.
         Para mim, fotografar é uma forma de estar, de contemplar, de darmos a nós mesmos a oportunidade de explorarmos, de conhecermos e de olharmos para pormenores que nunca antes tínhamos reparado.
         Uma máquina, um espaço e um pouco de tempo é o suficiente para descobrirmos mais sobre o Mundo e recebermos dele muito mais do que esperávamos. Experimeta, fotografa.



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